Palavras iniciais

Na fase de transição que ora vivenciamos, tudo está instável, como em análise. É como acontece durante a reforma de um edifício. Materiais são avaliados, retirados e atirados fora. Outros são aproveitados na nova construção.

É possível perceber em tudo uma espécie de aceleração, de recrudescimento dos acontecimentos na movimentação da própria vida, como a indicar que o momento não mais comporta acomodação nem omissão.

A hora é de decisões e de atitudes.

Ou cuidamos para que nossos “materiais” espirituais e vivenciais estejam em condições de ser aproveitados na nova construção, ou nos conformamos em ser atirados fora, ficando a aguardar novas primaveras no bojo do tempo, tendo em vista o crescimento que, neste momento de transição, é exigido de todos nós.

Podemos entender também que situação semelhante acontece com relação à mediunidade, ou melhor, à sua prática.

Daí este convite para refletirmos juntos, avaliarmos, repensarmos e buscarmos novos e melhores caminhos.

Conforme alertam irmãos maiores, há muitas coisas a mudar, outras a reforçar e outras ainda a eliminar para que as comunicações entre os dois mundos venham a cumprir mais amplamente as suas sublimes finalidades.

Sem qualquer intenção de orientar, tendo em vista a nossa insuficiência, queremos apenas alertar, amparados nas informações e exortações provenientes da dimensão espiritual.

Vamos então refletir juntos?

Práticas espíritas

Poderíamos comparar as práticas espíritas a uma carroça puxada pelos progressistas, tendo na retaguarda os ortodoxos pisando fundo no freio.

Na verdade, tal composição é importante para que essa carroça não corra depressa demais, podendo perder-se nos descaminhos. Mas como todo excesso é prejudicial, entendemos que os do freio estão pisando fundo demais, travando um progresso mais que necessário. Então vamos encontrar um movimento espírita atuando, em muitas das suas ações, no mesmo formato de 40 anos atrás.

Se, conforme a codificação do Espiritismo, já estamos ensaiando os primeiros passos nessa transição de “provas e expiações” para “mundo de regeneração”, devemos lembrar que transição pede mudanças. Assim, o que é necessário fazer? Permanecer como antes ou participar ativamente para que ela se dê mais depressa e de forma mais fácil?

Surge então uma pergunta: o que é necessário mudar?

Certamente as carências são muitas, mas vamos tratar neste opúsculo especialmente daquelas que se referem à mediunidade, cujas práticas pouco evoluíram nos últimos quarenta anos.

Vamos pinçar alguns trechos do prefácio do livro Lírios de Esperança, psicografado por Wanderley S. Oliveira, no qual Dona Maria Modesto Cravo* fala sobre a mediunidade em período de transição:

“Apesar da luz dos conhecimentos espíritas, o tesouro espiritual das informações não tem sido suficiente para despertar muitos adeptos a uma nova ordem de atitudes e idéias face aos desafios da ordem presente.”

“O intercâmbio interdimensional nesse contexto, que poderia servir de fortaleza aos mais auspiciosos projetos de liberdade e ascensão, em inumeráveis casos, não passa de enxada afiada em plena semeadura à espera do lavrador que a deseje manejar a contento.”

“(…) A história é a mãe da cultura, e a cultura é o conjunto das noções que os homens aceitam como referências para se conduzirem em seus grupos. A cultura espírita, em torno das questões mediúnicas, responde por uma mentalidade que inspira práticas e posturas nem sempre ajustadas aos reclames do tempo espiritual da transição. Transição é o tempo mental da renovação, a hora do recomeço e da reavaliação. Nesse cenário, os aprendizes da mediunidade serão aferidos com rigor. Muita coragem e sacrifício serão exigidos de quem realmente anseia servir sob novos e mais apropriados regimes, nesse tempo de contínuas mudanças.” (Grifos nossos)

Essas palavras de D. Modesta podem parecer de muita exigência para os candidatos a uma mediunidade em níveis mais avançados, mas importa lembrar que, geralmente, os médiuns acima referidos são espíritos que vêm conseguindo liberar-se de graves envolvimentos com ações contrárias ao bem, em vivências passadas. Muitos deles ainda trazem, na acústica da alma, recordações a subirem para o consciente, de forma vaga, mas que indicam a necessidade de maior doação e das renúncias que forem necessárias à priorização da sua tarefa mediúnica.

Já outros assumem tais tarefas sem maiores compromissos do passado, mas como uma poderosa alavanca para o próprio crescimento, ou ainda, simplesmente, por amor e dedicação à causa. São pessoas conscientes da necessidade inadiável de trabalhar pela libertação e asseio psíquico da Terra.

Dona Modesta continua:

“(…) Indispensável romper conceitos, vencer barreiras intelectuais e ter a ousadia para esculpir os novos modelos de relação intermundos, retirando a mediunidade do dogmatismo que aprisiona o raciocínio humano, e da tristeza que estorcega o coração como se os médiuns cumprissem severa sanção.”

“Sem exageros, vivemos um tempo em que as comportas mediúnicas, a despeito de estarem em plena movimentação, não permitem que a linfa cristalina da imortalidade goteje com a necessária abundância por suas frestas, para dessedentar o homem aprisionado ao deserto das paixões materiais…”

“Vivemos uma nova proibição mosaica como a do Velho Testamento! Proibição essa mais nociva que a dos velhos textos hebreus, porque não se faz por decretos formais, passíveis de serem revogados, mas sob a coação impiedosa do preconceito sutil, das convenções estéreis e de sofismas aprisionantes – hábitos de difícil extirpação da mente humana.”

“Um clamor ao serviço abnegado e consciente na regeneração da humanidade em ambas as esferas de vida, formação de frentes corajosas de amor, tarefas maiores de libertação e asseio psíquico da Terra. Eis os desafios delegados pelo Cristo a todos que O amam. Desafios que, em muitas oportunidades, são substituídos pela atitude impensada da acomodação…”

“Enquanto inúmeros aprendizes da mediunidade optam pelo fascínio da mordomia para servirem, preferindo o serviço mediúnico distante do sacrifício e nos braços do convencionalismo, Jesus conta com os destemidos, dispostos à segunda milha das ações que ultrapassam o comodismo inspirado na rigidez da pureza filosófica.”

“O sentimento da imortalidade precisa ser construído na intimidade do homem reencarnado. É instrução a serviço da espiritualização. Essa instrução, no entanto, carece de aplicação prática que retrate quanto possível a realidade imortal. Daí o imperativo de vivências mediúnicas incomuns, para além dos rígidos padrões de segurança e utilidade consagrados pela comunidade doutrinária.”

*Maria Modesto Cravo (1899-1964), curada por Eurípedes Barsanulfo, atendendo sua sugestão, foi a principal fundadora do Sanatório Espírita de Uberaba (MG). Excelente médium, foi o braço direito do Dr. Inácio Ferreira na utilização de sessões mediúnicas desobsessivas aliadas ao tratamento psiquiátrico dos pacientes. Hoje, na dimensão espiritual, desenvolve inúmeras tarefas no Sanatório Esperança (no plano espiritual) e através da mediunidade, aqui na Terra, com amor e imenso devotamento.

OBSERVAÇÃO:

Alguns espíritas têm se voltado contra as obras de Ermance Dufaux, psicografadas por Wanderley S. Oliveira, alegando que contrariam o movimento de unificação da Federação Espírita Brasileira – FEB.

Também sobre isso é preciso refletir com bom senso. Se esse movimento de unificação pretende uniformizar as práticas espíritas, isto certamente contraria o próprio princípio de liberdade que a doutrina preconiza. Se tenciona unir os espíritas em torno do mesmo ideal, então as obras da Ermance são mais que importantes nesse contexto, por aprofundarem a questão da necessidade de vivenciarmos os conteúdos espíritas, desenvolvendo mais amorosidade, humildade, alteridade e sinceridade em todos os momentos e situações.

Inúmeras têm sido as comunicações procedentes do mundo espiritual que falam sobre a necessidade de vencer barreiras intelectuais para vivenciar a comunicação interdimensional de forma mais plena. Muitos espíritos ilustres reclamam dizendo que sentem como se tivessem morrido duas vezes: a primeira, pela desencarnação; e a segunda, quando se aproximam de médiuns visando comunicar-se e estes se recusam a recebê-los, por medo do que os companheiros possam dizer.

Diante disso, podemos observar algumas situações que precisam ser repensadas:

1 – A cultura do melindre nos meios espíritas gerou situações em que o médium se nega a receber um espírito mais elevado, para não acabar sendo “fritado” pelos companheiros do grupo, quando deveria ser fiel ao mandato que lhe confiaram, mesmo que isto significasse o calvário de que fala D. Modesta.

2 – Os grupos mediúnicos deveriam trabalhar intensamente para erradicar os melindres. Além de prejudiciais aos próprios trabalhos, escondem em seu bojo o orgulho e a vaidade.

3 – Enquanto alguns médiuns se sentiriam inflar de vaidade por “receber” espíritos ilustres, outros adotam a cultura da indignidade que vige nos meios espíritas: “Quem sou eu para receber tal espírito?”, “Imagine eu psicografando com espíritos como fulano ou sicrano”…

Será que o melindre, a vaidade ou a cultura da indignidade poderão servir aos propósitos evolutivos da espiritualidade? Não seria mais coerente os médiuns e os grupos mediúnicos se esforçarem mais pelo próprio crescimento interior, a fim de se apresentarem como instrumentos adequados a comunicações com espíritos de mais elevada estirpe? Certamente é o caso de esses grupos começarem a desenvolver mais ações e de forma mais intensa, visando melhorar o nível espiritual dos seus membros para que os comunicantes possam encontrar instrumentos à altura.

Um grupo mediúnico que consiga eliminar os melindres, gerar afetividade entre seus membros e realizar, ao término de cada sessão, análise das manifestações, com sinceridade, mas com muito amor, evitará que seus médiuns se façam portadores de mistificações e de animismo em níveis prejudiciais.

Na verdade, há muitas coisas a serem repensadas, outras a serem mudadas, e outras ainda a serem aprendidas, para que as comunicações entre nós e o mundo espiritual venham a cumprir mais amplamente as suas sublimes finalidades.

Oferta de Deus

Nunca devemos temer a mediunidade, mas cultivá-la com amor, como instrumento ofertado por Deus, através do qual podemos não apenas resgatar dívidas e cumprir compromissos, mas também perceber presenças sublimes, vivenciar momentos de soberanas emoções, participar de ambientes, atividades e situações tais, que as palavras não conseguem descrever. Mesmo que esses momentos sejam raros, oferta daqueles que nos amam e nos assistem, são tão grandiosos e deixam marcas tão profundas na alma que os anos não conseguem apagar. E essas marcas são assim como núcleos floridos cheios de paz e harmonia nas profundezas do espírito, onde podemos buscar novo alento, novas motivações para viver e sentir felicidade, sempre que a vida nos machuca ou se torna amarga ou triste.

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