Sem dúvida, um dos exercícios mais salutares para a saúde física e, principalmente, psíquica, desde que respeitosa, é a permuta de opiniões.

Adepto da Fé Raciocinada, o espírita deve mesmo especular sobre pontos doutrinários que lhe pareçam nebulosos ou contraditórios. Não sendo mais que homem fora do corpo de carne, o espírito — seja ele qual for — não é detentor da Verdade Absoluta. Para nós, os cristãos, a Verdade que não admite o menor questionamento é somente a do Cristo!

Escrevendo para a Terra, estou, sim, consciente de minhas limitações, tanto quanto estou consciente das limitações daqueles que opinam sobre a obra de nossa lavra espiritual.

Emmanuel, inspiradamente, escreveu pelo lápis de Chico Xavier: “Tudo muda. Menos a Lei da Mudança”.

O Espiritismo, em seu tríplice aspecto, é de natureza progressista. O edifício doutrinário, de que Kardec lançou os fundamentos, não está pronto e, talvez, nunca esteja.

No livro “A Gênese”, logo em seu primeiro capítulo, o Codificador grafou: “Os Espíritos não ensinam senão apenas o que é necessário para guiar no caminho da Verdade, mas eles se abstêm de revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, verificar e submeter tudo ao cadinho da razão, deixando mesmo, muitas vezes, que adquira experiência à sua custa”.

Nosso amigo Dr. Hernani Guimarães Andrade, que tive a alegria de reencontrar neste Outro Lado, era da opinião de que os espíritas não devem esperar que tudo lhes seja revelado pelos“mortos” — opinião, diga-se de passagem, da qual sempre compartilhei e continuo compartilhando.

Não obstante, é forçoso inferir que, com as exceções de praxe, os espíritas, sem partidarismo de qualquer natureza, sequer têm se exercitado na arte de raciocinar. Ouso dizer que, no Movimento Espírita Brasileiro atual, faltam pensadores da estirpe, por exemplo, de José Herculano Pires e Deolindo Amorim.

Em meus muitos diálogos com Odilon Fernandes, aqui, na Vida Espiritual, tenho manifestado a ele a preocupação que, de maneira sucinta, lhes exponho: Tem muita gente querendo escrever como médium, e não ser ele mesmo o autor!Enquanto na condição de medianeiros não passam de instrumentos limitados, na recepção de páginas que deixam a desejar, poderiam ser excelentes articulistas em nossos periódicos e autores de livros importantes. Como disse Kardec, nas páginas de “O Livro dos Espíritos”, “… o estudo do Espiritismo é imenso; liga-se a todas as questões da metafísica e da ordem social; é todo um mundo que se abre ante nós”.

Odilon concorda comigo e diz, com a sua capacidade de síntese: “Mediunidade não é só interagir com os espíritos, mas, principalmente, interagir com a Vida, atinando, por fim, com a Sabedoria de Deus”.

Chico Xavier, na condição de médium, pensava com os Espíritos, que dele se prevaleciam não apenas como instrumento passivo das ideias que transmitiam aos encarnados, mas também como “elemento aferidor” das necessidades de conhecimento que deveriam ser abordadas e desenvolvidas em seus comunicados.

Espero que eu esteja conseguindo me fazer entender. Sei que todos nós somos portadores de faculdades mediúnicas passíveis de cultivo — a rigor, não há ninguém sobre a Terra que, de alguma maneira, não seja médium! Neste “oceano” de pensamentos e emoções em que, juntos, bracejamos, ninguém algo faz sem que esteja influenciando e sendo influenciado.

A Revelação Espírita não dispensa o trabalho do homem, como não dispensou o gênio de Allan Kardec, que não foi, ao contrário do que se imagina, mero compilador — Kardec era o mais capacitado integrante da Falange do Espírito da Verdade!

Que prossigamos, pois, com blog ou sem blog, neste diálogo sem precedentes, entre os Dois Planos da Vida, que o Espiritismo — e somente ele — nos enseja.

Aos que possuem “ouvidos de ouvir”, nós, os considerados mortos, ainda que seja para incomodar, talvez sempre tenhamos alguma coisa proveitosa a dizer, pedindo escusas, é claro, pela nossa indébita intromissão.

INÁCIO FERREIRA

Uberaba – MG, 6 de outubro de 2009.

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