Dom, 16 de Maio de 2010 00:16

A CASA MENTAL E A REFORMA ÍNTIMA SEM MARTÍRIO – parte II
“Sem dúvida, todos sofremos para crescer; martírio, no entanto, é o excesso que nasce da incapacidade de gerir com equilíbrio o mundo emotivo, assumindo proporções e facetas diversificadas conforme o temperamento e as necessidades de cada qual.” – Reforma Íntima sem Martírio, capítulo 1, autora espiritual Ermance Dufaux, Médium Wanderley Oliveira.
Sinopse da Parte I deste Artigo
Na primeira parte deste artigo, estudamos os níveis da casa mental abordados por André Luiz no livro No Mundo Maior, psicografado por Francisco Cândido Xavier.
André Luiz compara os três níveis da mente a uma casa. No porão (cor preta na ilustração) é guardado todo material utilizável ou não de uma residência e representa o subconsciente. É o depósito da vida mental onde são arquivadas as experiências, os fracassos e toda trajetória evolutiva da alma.
O ambiente social da casa é composto por quarto, banheiro, cozinha e sala. É a parte na qual mais transitamos no nível mental, representando o consciente (cor branca na ilustração), a atuação do presente momento.
E o sótão de uma moradia é parte menos freqüentada cujos fins são relax ou atividades de refazimento, simbolizando o superconsciente (cor amarela na ilustração) ou a parte nobre da mente, somente alcançada pelos estados elevados de consciência como, por exemplo, a oração e meditação.
Ninguém Mata o Homem Velho
O subconsciente, assim como o superconsciente da casa mental estudada por André Luiz, pode ser designado como sendo a sombra da mente, isto é, aquela parte ignorada, ainda pouco explorada ou quase completamente desconhecida por nós.
Vou abstrair da conceituação técnica da sombra, uma terminologia usada pelo Dr. Carl Gustav Jung, para facilitar nosso entendimento prático. Sombra não significa algo ruim dentro de nós. Existe também a sombra positiva. Nessa divisão didática da casa mental, poderíamos dizer que a sombra negativa é o subconsciente, conquanto também nela encontramos muitas qualidades e registros positivos. E o superconsciente seria a sombra positiva, onde residem todos os germens da perfeição humana que um dia alcançaremos.
Entre outros conceitos, a sombra é o que nós espíritas chamamos de “homem velho” ou aquilo que necessita ser transformado em nós. Costumamos usar a expressão “matar o homem velho” e é sobre isso que hoje quero refletir. Ninguém elimina partes de si para alcançar a reforma íntima. Temos que aplicar ao nosso mundo íntimo o conceito de destruição contido em O Livro dos Espíritos. Nada pode ser destruído, mas transformado, aprimorado, reciclado.
Vamos dar uma olhadinha em nosso gráfico ilustrado. O superconsciente representa a individualidade do Ser e o subconsciente é o repositório das personalidades arquivadas ao longo de várias existências. Uma forma mais comum de entender a reforma íntima seria usar de vontade férrea (a tesoura na ilustração) para podar os hábitos negativos ou infelizes, entretanto, somente por esse caminho da disciplina ficaremos na superfície da tarefa de melhoria moral. Mais do que a “tesoura”, temos que aprender como manejar a “lupa” da amorosidade para conhecer com sabedoria o nosso mundo íntimo. A lupa amplia nossa capacidade de enxergar o mundo interior e nos capacita com mais acuidade, percepção e sensibilidade.  
Portanto, quando se trata de nossa melhoria interior estamos falando de criar uma relação amigável, conciliadora e pacífica com nossa sombra. Aprender a conquistar essa parte da vida mental que ainda não conhecemos suficientemente reciclagem maus hábitos (subconsciente) e desenvolvendo valores (superconsciente).
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Auto-conhecimento somente não basta para se Libertar

Na questão 919-a de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec demonstrou curiosidade sobre qual seria o método mais eficaz para se melhorar nessa vida, e os Sábios Guias lhe apontaram o caminho do auto-conhecimento como resposta.
Inegavelmente o auto-conhecimento é a porta de entrada para a investigação dessa sombra desconhecida na nossa intimidade. Porém, além disso, precisamos aprender algo que o estudo de si não nos oferece automaticamente: o ato de aprender a amar o que você vai conhecer em você mesmo.
Muitas pessoas buscam o auto-conhecimento e terminam tendo comportamentos mais cruéis ainda consigo e, o pior, não alcança a pacificação de seu íntimo, tombando no que Ermance Dufaux chama de martírio ou as dores adicionadas ao processo da auto-analise, pelo motivo de não sabermos como gerir a vida interior. Isso pode aumentar ainda mais os nossos conflitos.
A Sombra Amigável
O estudo da casa mental de André Luiz, conciliado com o livro “Escutando Sentimentos”, de Ermance Dufaux, é um bom caminho para aprendermos a atitude de amar-nos como merecemos, usando a “lupa” do amor a si na analise cuidadosa da vida mental.
Temos que usar a “tesoura” da boa vontade para evitar que os hábitos infelizes tomem conta do nosso consciente, entretanto, isso é apenas uma parcela da verdadeira transformação íntima, porque chegará um momento em que seremos chamados a usar menos a “tesoura” e aprender a usar mais a “lupa” da amorosidade na investigação de nossa sombra, fazendo dela uma aliada na lenta e árdua tarefa de nossa melhoria moral e espiritual.
A lupa é a nossa capacidade de olhar com cuidado para o nosso “eu real” e aprender a criar uma relação de amor com o que somos. Isso não significa conformidade com nossa parcela menos nobre ou ter que assumir as personalidades enfermas que ainda carregamos, mas apenas olhar com compaixão sem julgamentos ou punição a nós mesmos.
Esse, sem dúvida, é nosso primeiro e mais importante passo para iniciarmos uma reforma íntima sem martírio e com resultados mais motivadores.
Diante disso, temos urgência de métodos nos Centros Espíritas que auxiliem a estudar Espiritismo com um objetivo muito além do que hoje é estudado. É preciso estudar doutrina para compreender melhor a si mesmo. Que hajam estudos básicos e sistematizados de Espiritismo e Evangelho, todavia comecemos a pensar também em estudos sistematizados de si mesmo à luz da doutrina espírita. Sem isso, corremos um risco lamentável de acumular muito saber sobre o que nos cerca, sem noções claras sobre como nos comportar diante do que verdadeiramente somos.
Não é o conhecimento para fora que liberta. A esse respeito, no estudo da casa mental, Calderaro afirma a André Luiz:
“Porque, se o conhecimento auxilia por fora, só o amor socorre por dentro – acrescentou o instrutor tranqüilamente –. Com a nossa cultura retificamos os efeitos, quanto possível, e só os que amam conseguem atingir as causas profundas.” – No Mundo Maior, psicografia de Francisco Cândido Xavier, Editora FEB.

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