Por Leo Pessini – Camiliano

suicídio é hoje um dos maiores desafios mundiais de saúde pública, causando a morte de cerca de 1 milhão de pessoas por ano. Perdem-se mais vidas com o suicídio do que em todas as guerras e homicídios no mundo, anualmente. Estimativas sugerem que as fatalidades podem crescer para 1,5 milhão pelo ano 2020 e dez a vinte vezes mais em termos de tentativas de suicídio. Isto representa uma morte a cada 20 segundos e uma tentativa a cada um ou dois segundos. Em termos mundiais, o suicídio está entre as três maiores causas de morte na faixa etária de 15-44 anos. Pelo menos 100 mil adolescentes se suicidam no mundo, a cada ano.

As mais altas taxas de suicídio estão no Leste Europeu e as mais baixas encontram-se principalmente na América Latina, nos países islâmicos e em alguns países asiáticos. Existe pouca informação sobre suicídio nos países africanos. Estima-se que das tentativas que falharam, resultam ferimentos, hospitalização, trauma emocional e mental.

ESTATÍSTICAS

Existem mais suicídios entre os homens que entre as mulheres. A taxa era de 3,2:1 em 1950,3,6:1 em 1995 e estima-se que será de 3,9: I em 2020. Existe uma única Anualmente, perdem-se mais vidas com o suicídio do que em todas as guerras e homicídios no mundo exceção, a China, onde as taxas de suicídios de mulheres são consistentemente maiores que as taxas de suicídios entre os homens. Em relação à faixa etária, existe a clara tendência do aumento com a idade. A taxa começa com 1,2 para 100 mil homens (no grupo etário de 5-14 anos) e gradualmente aumenta para 55,7 (com mais de 75 anos). Em relação às mulheres, ela passa de 0,5 para 18,8, nas mesmas faixas etárias.

Olhando para os fatores culturais e religiosos relacionados com o suicídio, temos dados interessantíssimos. Nos países islâmicos (exemplo: Kuwait), em que cometer suicídio é estritamente proibido, a taxa geral é quase zero (0,1 por 100 mil habitantes) Nos países hinduístas (exemplo: Índia) e cristãos (exemplo: Itália), a taxa total de suicídio é em torno de 10 por 100 mil habitantes (hinduístas: 9,6 e cristãos: 11,2). Nos países budistas (exemplo: Japão), o total de suicídios é muito mais alto, com uma taxa de 17,9 por 100 mil habitantes. Nos países que oficialmente foram declarados "ateus" por seus regimes políticos, tais como a China, o antigo bloco da URSS e a Albânia, temos uma taxa extremamente alta, de 25,6 suicídios por 100 mil habitantes.

O suicídio não é algo inevitável. Ele pode ser prevenido de muitas formas, já que se relaciona a uma complexa interação de fatores causais. Necessitamos de especialistas, como profissionais médicos e de saúde mental, para combater o suicídio em termos de avaliar os riscos, atender nos serviços de emergência, prover tratamentos necessários e na avaliação de medidas preventivas. Contudo, além dos esforços destes profissionais, é necessária também a ação de todos nós.

Um obstáculo para a prevenção são os fortes tabus sociais e morais, bem como os mitos sobre o suicídio e os entes queridos. Estes tabus dificultam um diálogo aberto sobre como agir perante tal situação. Os mitos freqüentemente julgam as pessoas suicidas como loucas, os que sobrevivem à tentativas de suicídio como manipuladores, e o ato de suicidar-se como algo inevitável. Os mitos criam atitudes disfuncionais e são os maiores obstáculos para mudanças de atitudes pessoais, comunitárias e públicas, por aumentar a consciência de que o suicídio, como um problema crítico de saúde pública, é em grande parte evitável.

CAUSAS E SOLUÇÕES

Um comportamento suicida tem na sua base um grande número de causas complexas, incluindo, entre outras: doença mental, pobreza, dependência química, desemprego, perda de pessoas queridas, conflitos de relacionamentos, crises econômicas e problemas de trabalho. Também tem um papel importante no número de suicídios, entre outras causas, uma história familiar de suicídio, alcoolismo e dependência química, abuso na infância, isolamento social, desordens mentais, incluindo a depressão e a esquizofrenia.

Os métodos mais comuns de suicídio consistem no uso de pesticidas, armas de fogo e medicação, tais como analgésicos, que podem ser tóxicos quando consumidos em excesso. Os pesticidas constituem-se no maior meio de suicídio nas regiões rurais da China. Restrições ao acesso às armas de fogo diminuíram o número de suicídios em muitos países.

Entre os fatores protetores da vida, incluem-se a auto-estima e o sentido de pertença social, especialmente a família e os amigos, apoio social, numa situação de relacionamento estável e o cultivo de uma religião e espiritualidade. Uma importante estratégia de tratamento é a identificação precoce e tratamento apropriado das desordens mentais.

Educar os profissionais de saúde básica para a identificação e o tratamento das pessoas com de sordens humanas, resulta na redução de suicídios entre os que estão em risco, como já foi documentado na Finlândia e no Reino Unido. Intervenções baseadas no princípio de conexão, pertença e fácil acesso à ajuda, tal como samaritanos anônimos (CVV), serviços telefônicos de acompanhamento de idosos em suas residências, trazem resultados encorajadores, além de intervenções psicossociais, centros de prevenção ao suicídio e prevenções escolares.

Houve uma mudança radical na postura da ética e na visão da Igreja em relação ao suicídio: da condenação radical e negação de qualquer serviço litúrgico para o suicida, bem como, ser enterrado num lugar "à parte no cemitério", para uma atitude de acolhida e solidariedade, principalmente para com os familiares. No Antigo Testamento, temos a descrição de casos individuais de suicídio (Abimelec, Sansão, Saul e outros) sem desaprovação.

O Novo Testamento menciona somente um caso de suicídio, e sem condenar. Trata-se do enforcamento de Judas Iscariotes após a traição a Jesus. Devemos lembrar que todas as maiores religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo condenam o suicídio. Eticamente podemos falar em responsabilidade, quando o mártir age em liberdade e com consciência. Na maioria das vezes estes dois elementos estão profundamente comprometidos, como nos revelam a psicologia e a psiquiatria.

Muitos se perguntam se o suicídio não seria um ato de coragem; outros dizem ser um ato de covardia. Talvez não seja nem um, nem outro, mas, muitas vezes, um ato de desespero, um grito de socorro não entendido, que exige de nós não julgamento, mas solidariedade.

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