"Ajuda, pois, aqueles que no Além-Túmulo sofrem e te advertem com a aflição deles.
Talvez não sejas um grande médium, conhecido e disputado pela louvação dos homens
no entanto, procura constituir-te obreiro do amor, que não é ignorado pelos infelizes,
podendo ser identificado pelos sofredores da Erraticidade." (Dimensões da Verdade)

O médiun, desde os instantes iniciais de sua trajetória na seara mediúnica espírita, aprende que a prática dessa faculdade exigirá dele – se quiser produzir algo proveitoso em benefício dos que sofrem e, concomitantemente, conseguir o desenvolvimento de sua aptidão – esforço e dedicação, estudo metódico e constante no Espiritismo, perseverança e disciplina e muita vontade de se renovar, de se transformar, para o que deverá também aliar o trabalho da caridade aos requisitos mencionados.

Somando esforços e experiências, empenhando-se profunda e sinceramente neste mister, cônscio de sua responsabilidade, irá aos poucos conseguindo educar e desenvolver a sua faculdade. No trabalho incessante, adquirirá a imprescindível prática, que muito o ajudará no bom desempenho das tarefas a que for chamado a desincumbir.

Não se descurando do estudo, cuidando por melhorar o seu íntimo – auto-evangelizando-se -, adquirirá a confiança dos Instrutores Espirituais, que o requisitarão, cada vez mais, para trabalhos na seara do Mestre.

E, como os médiuns devotados ao labor da caridade, e que operam em nome de Jesus, são por ora em pequeno número, é natural que aqueles que se sobressaiam na dedicação e no amor fraternal, a serviço dos semelhantes, sejam convocados ao sublime dever de secundar os esforços dos Benfeitores do Mundo Maior.

Dentre todos os trabalhos que o campo bendito da mediunidade oferece, um dos mais importantes é o ministério da desobsessão. Isto porque ele engloba, praticamente, todas as atividades da caridade e do amor ao próximo que podemos auferir das faculdades medianímicas, pois os médiuns que integram uma equipe de desobsessão terão oportunidade de exercer vários tipos de atendimento, nos quais servirão como instrumentos do Alto.

Quando uma equipe se apresta a atender um caso de obsessão, numerosas providências serão tomadas e os medianeiros atuarão em vários campos: no trabalho de passes no obsidiado; na tarefa de esclarecimento a este; no exercício da psicofonia (ou em outros tipos de mediunidade) durante as reuniões; nos instantes dos trabalhos mediúnicos, fornecendo fluidos, utilizados pelos trabalhadores espirituais na sustentação do ambiente da reunião, permitirão a criação de painéis fluídicos necessários ao esclarecimento dos comunicantes e, ainda, transfusão de energias vitais, ao contacto das quais o desencarnado venha a se fortalecer e aliviar as suas dores e aflições. E mais: serão testados na boa vontade, paciência e perseverança no trato tanto do obsidiado como dos obsessores; serão mesmo vigiados por estes últimos que lhes espreitam os passos, pondo-lhes à prova a resistência e a fé. Estarão, enfim, cooperando para o labor sagrado da cura das almas – finalidade maior da Doutrina Espírita.

Todas essas atividades são expressões do mais acendrado amor ao semelhante, pois, se não estiverem elas permeadas desse sentimento, a produtividade e o êxito serão nulos, no que se refere aos encarnados.

A equipe deve formar um todo harmônico, visto que a mesma quota de doação será requisitada pelos Mentores aos doutrinadores, ao dirigente, a todos os integrantes.

A atuação propriamente dita dos médiuns, durante uma sessão mediúnica de desobsessão, é de vital importância para o bom andamento dos trabalhos. Eles são os instrumentos de que o Mundo Maior se utilizará para o pronto atendimento aos Espíritos sofredores e obsessores.

Emmanuel afirma: "Ser médium é ser ajudante do Mundo Espiritual. (Seara dos Médiuns, Emmanuel). E para que essa ajuda seja efetiva, é fundamental que o médium esteja preparado, como já vimos, através de um adestramento feito com fé, disciplina, estudo e amor. Para integrar um grupo de desobsessão, é preciso que o médium já se encontre equilibrado e afeito aos trabalhos mediúnicos.

A incorporação de um obsessor ou de um suicida, por exemplo, é bastante penosa para o medianeiro. As vibrações desses Espíritos, a atmosfera psíquica em que vivem repercutem profundamente no médium. Este passa a se identificar com os sofrimentos ou perturbações que apresentem, como também sentirá os reflexos das angústias e dos sentimentos de que são portadores.

O ambiente psíquico de tais entidades causa grave mal-estar, e muitos médiuns conseguem captar o panorama mental que estejam emitindo. E estes quadros mentais são tão deploráveis e deprimentes, que o medianeiro deve estar bem equilibrado para não se deter ou se impressionar com as tristes cenas que lhe são projetadas e nas quais o desencarnado se fixa por serem aquelas que o levaram à queda ou à desencarnação.

Em nossas modestas tarefas como médium, nas reuniões de desobsessão do Centro Espírita Ivon Costa, nas comunicações de entidades sofredoras ou obsessoras por nós recebidas, ao nos ligarmos ao comunicante, ficamos cientes dos seus dramas, dos seus pensamentos emitidos naquele instante do intercâmbio, assim como do modo como desencarnou e de todo o ambiente psíquico que o envolve. Vemos cenas inteiras a se desenrolarem. Muitas dessas cenas apagaram-se, com o tempo, da nossa memória, enquanto que outras parecem ficar gravadas, talvez como lições que precisamos trazer bem vivas dentro de nós.

Dentre as comunicações em que vimos clichês mentais exteriorizados pelo comunicante, citaremos três, as quais estão bem vivas em nossa lembrança.

1°) CASO

Uma das características das reuniões de desobsessão que freqüentamos é que em determinadas noites, sem aviso prévio aos encarnados, e dando como que uma pausa às comunicações dos obsessores, os Mentores Espirituais trazem um grupo de Espíritos que desencarnaram de maneira semelhante ou que tiveram um padrão de vida mais ou menos análogo. Assim, às vezes, vêm aqueles que desencarnaram assassinados, ou os que se desprenderam pelo suicídio, ou os que foram alcoólatras, toxicômanos, etc. Ou ainda os que partiram em acidentes violentos. Nessas noites, em que as aflições dos Espíritos se mostram de forma inenarrável, a reunião assemelha-se a um pronto-socorro espiritual, com toda a equipe – tanto do plano físico quanto do espiritual- amparando, medicando e aliviando os que estão passando por grandes sofrimentos. Os médiuns recebem esses irmãos com todo-amor, exprimindo para o grupo as dores sem conta que padecem. Muitos deles passam gradativamente do estado aflitivo ao da prostração e do sono benfazejo, sendo levados para locais de tratamento na Espiritualidade, onde despertarão em melhores condições.

Foi, pois, numa dessas noites, em que as manifestações eram todas de entidades vítimas de assaltos, que recebemos, psicofonicamente, uma senhora que residira num subúrbio do Rio de Janeiro. Através das cenas mentalizadas por ela, ficamos cientes da sua desencarnação, quando visualizamos todas as ocorrências. Estando sozinha em casa – já que o esposo não estava -, pressentiu que em seu quarto havia entrado um homem com intuito de assaltá-la. Era tarde da noite, e ela, deitada na cama, despertara, surpreendendo o ladrão. Tomada de pavor quis gritar, reagir e mesmo fugir, mas foi por ele apunhalada. O horror experimentado pela comunicante nos invadiu também e vimos toda a cena do brutal assassínio, bem como os detalhes do quarto envolto em penumbra.

Essa senhora foi acalmada pelo doutrinador, através do passe e de palavras reconfortantes, que a levaram a um estado de sonolência, com a finalidade de desligá-la do clichê mental que revivia continuamente e do estado de pavor e revolta em que se debatia.

2º CASO

Comunicou-se uma entidade desencarnada por afogamento, num desastre com uma kombi. Esta caiu no rio, repleta de passageiros, inclusive crianças. Ninguém se salvou. Esse desastre ocorreu há alguns anos. A comunicação deu-se um mês e pouco depois do fato.

O Espírito revivia mentalmente a cena, debatendo-se em incalculável aflição, e esta foi também vislumbrada por nós, emocionando-nos a impressionante visão dos passageiros em luta com a morte. Foi um quadro muito triste e que até hoje não se apagou da nossa mente – lembramo-nos com nitidez da ocorrência tão lamentável. Foi socorrido e aliviado, sendo amparado pelos Mentores.

3º CASO

Ligou-se a nós um Espírito que desencarnou pelo suicídio. Apresentava-se como uma moça bastante nova, e o quadro da sua desencarnação era repetido continuadamente.

Foi num quartinho pobre que se enforcara, num ato de supremo desespero. A cena desenrolava-se desde o momento em que ela subia a escada do prédio velho e sujo, até quando entrava no quarto e consumava o gesto extremo.

Estava no auge de suas agonias e do cansaço. Medicada, aliviada, passou ao estado do sono anestesiante, quando foi levada pelos Amigos da Espiritualidade.

Sopesando as razões aqui expostas, não é difícil entender-se o quanto é indispensável que a atuação dos médiuns seja a mais segura e equilibrada possível. De tal modo que, ao término dos trabalhos, já estejam refeitos, plenamente desvinculados dos clichês mentais exteriorizados pelos comunicantes, bem como dos fluidos negativos. O normal é que estejam revigorados pela assistência dos Benfeitores Espirituais, deixando o recinto da reunião com o coração leve e feliz pelo dever cumprido. Outrossim. o médium que, ao final da sessão, prosseguir sentindo-se mal mesmo após ter-lhe sido ministrados passes antes do encerramento, evidencia que não apresenta ainda condições ideais para o ministério da desobsessão.

Já presenciamos casos em que, após o fim dos trabalhos, o médium se apresentava desequilibrado, dizendo-se envolvido por entidade que desejam comunicar-se, a tal ponto que foi preciso socorrê-lo com novos passes e até doutrinação dele mesmo.

Também já ouvimos de pessoas que participam de trabalhos mediünicos a afirmativa de que saem das sessões com dor de cabeça e piores de que quando entraram. Em tais situações deduz-se, de duas uma: ou o problema é com o médium que ainda não se educou e equilibrou, ou a reunião não está sendo conduzida com todos os requisitos fundamentais para trabalhos desse teor, apresentando falhas que se refletem nos participantes.

Existe também uma corrente de opinião que merece mencionada. Muitos defendem o ponto de vista de que é imprescindível a presença de um médium vidente nos trabalhos desobsessivos. Em realidade, a presença deste não é fundamental. Caso, porém, exista este elemento no grupo, deve ele ser disciplinado e controlado, pois não é de bom alvitre que fique narrando a todo instante o que está vendo. Esse método pode sugestionar ou induzir os outros médiuns, além de ser uma "quebra" na concentração, por despertar o interesse e curiosidade.

Há outras formas de percepção, talvez mais seguras que a própria vidência. Referimo-nos, principalmeme, à possibilidade que tem o médium de distinguir pelas vibrações, pela sintonia, o tipo de entidade que se comunica e, assim, captar o seu pensamento.

A atuação dos médiuns videntes, é, aliás, um item muito interessante que mereceria um estudo à parte. De passagem, diremos apenas que esta faculdade exige muita humildade, discernimento e prudência por parte do médium. Qualidades estas que o ajudarão a discernir o que está vendo sem se envaidecer, sem se exaltar, sem exagerar, bem como a ter um critério muito ponderado e moderado sobre o que deve e o que não deve dizer ao grupo. Quando se trata de visão de Espíritos perseguidores, obsessores, o bom-senso tem de funcionar para que não venha a dizer, por exemplo, a um obsidiado o quanto é terrível e de aspecto apavorante o seu obsessor. Se se trata, por outro lado, de quadros de grande beleza, convém funcionar a humildade e a prudência; pois na maioria das vezes o médium deve calar-se sobre as suas mais belas visões.

Quando o médium, numa reunião de desobsessão, se desliga do cotidiano em que vive e se esquece de si mesmo e se volta com todo o seu potencial de atenção para o trabalho que irá se efetuar;

– quando, desligado dos problemas físicos, das preocupações que muita vez lhe afligem o coração, se eleva em prece e se apresta, assim, a bem amar a todos os sofredores que se apresentarem;

– quando sente inundado o seu próprio mundo Íntimo dos sentimentos que avassalam o visitante do espaço;

– quando, penetrando na multidimensão da Vida Maior, sintoniza com a esfera do Bem e com os trabalhadores de Jesus que operam em todas as faixas do Amor;

– quando assim se coloca na fronteira entre os dois mundos, então estará ele integrado na bênção divina do labor da Caridade Maior, a Caridade espiritual, que só a Doutrina Espírita tem condições de promover e propiciar com toda a amplitude.

E, por um prodígio maravilhoso: quanto mais ele se esforce, quanto mais se dedique, sofrendo até (e quase sempre) para cumprir a sua tarefa, quanto mais se doe, mais venturas, alegrias e felicidade experimentará diante da sensação de ter cumprido realmente o seu dever e ter contribuído para minorar a dor de seu semelhante.

Não existe na face da Terra alegria mais suave e verdadeira que aquela que invade o nosso coração quando conseguimos contribuir para a felicidade alheia. É como se, de repente, o céu azul invadisse a nossa própria vida, dando-nos uma dimensão de infinito, uma sensação de bem-estar inefável, fazendo com que haja música celestial em nossos ouvidos e ao nosso redor.

É a sensação de estar em paz com o mundo e de que o mundo todo está em paz.

Suely C. Schubert

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